domingo, 10 de março de 2013

As três hegemonias do capitalismo histórico - Giovanni Arrighi


ARRIGHI, Giovanni. As três hegemonias do capitalismo histórico. In. GILL, Stephen (org.) Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2007.


O declínio dos Estados Unidos como potência inspirou os estudos sobre ascensão e declínio de hegemonias.  A maioria desses estudos baseia-se no conceito de inovação e liderança.  O conceito gramsciano de hegemonia pode contar a história da ascensão e queda de uma potência mundial. Segundo Gramsci, hegemonia é entendida como poder de um Estado de exercer funções governamentais sobre um sistema de Estados soberanos, não se trata de domínio e sim de exercício de liderança. Nesse contexto há uma combinação entre consentimento e coerção.
As hegemonias mundiais são produtos do moderno sistema interestados surgido com o fim do sistema de governo medieval europeu.  Tanto o sistema de governo medieval como o moderno são anárquicos, ou seja, são segmentados.
As relações no sistema medieval eram baseadas nas relações senhor/vassalo. O sistema moderno, por sua vez, institucionaliza a autoridade pública de domínios jurisdicionais mutuamente exclusivos. Essa evolução se deu associada ao desenvolvimento global do capitalismo como forma de acumulação.  Com o desenvolvimento do capitalismo, estados e empresas se segmentam para competir pelo capital.  Esse processo se desenvolve dentro de duas lógicas a capitalista e a territorialista.  Para os territorialistas o poder é expresso pelo número de habitantes de seus domínios e a riqueza vista como subproduto dessa expansão.  Já os capitalistas vêem o poder como extensão de seu controle sobre recursos e as aquisições territoriais como subproduto.   Da dialética entre essas duas lógicas é que nasce o moderno sistema interestados.
As cidades-estados da Itália tinham as características do moderno sistema interestados: sistema capitalista da guerra e de construção do Estado; o funcionamento do “equilíbrio de poder”; transformar as relações salário-trabalho em “indústria de produção de proteção”, isto é, realização da guerra e construção do Estado; e os governantes assumirem a liderança no sentido de construir redes de diplomacia residencial. Essas características criaram uma extraordinária concentração de riqueza e poder nas mãos das oligarquias que governavam as cidades-Estado do norte da Itália.
Estados territorialistas investem em guerra para conquista territorial como meio de obter riquezas e poder. A luta territorial fortaleceu os Estados embora as conquistas territoriais sejam improváveis. A luta pelo poder na Europa gerou técnicas sofisticada de construção do Estado e realização da guerra para subjugar Estados e povos não-europeus, como conseqüência houve intensificação do conflito social e a desintegração das redes transeuropeias de comércio. A Espanha, que no séc. XVI tinha poder dentro e fora da Europa, aliada a casa de Habsburgos não conseguiram deter o caos que criou as condições para o surgimento da hegemonia holandesa e o termino do sistema medieval.
As Províncias Unidas lideraram o processo de liquidação do poder medieval em coalizão com Estados dinásticos. Com o avanço do caos da Guerra dos Trinta Dias a Holanda consegue cada vez mais aliados para sua proposta de um novo sistema de poder até que a Espanha fica isolada. Com a paz de Westfália em 1648, nasceu um novo sistema de poder. O propósito do sistema de Westfália era de que os estados formassem um sistema de político mundial baseado no direito internacional e no equilíbrio de poder, além disso, tinha propósito social de tolerância religiosa e restauração da liberdade de comercio. A reorganização do espaço político de acordo com os interesses da acumulação de capital marca o início do sistema interestados e o capitalismo como sistema mundial. A riqueza e o poder da Holanda baseavam-se em redes comercias e financeiras formadas pelos impérios coloniais além-mar.
A mudança do sistema mundial se deu com a Holanda no séc. XVII e não com Veneza no séc. XV por diversas razões: a oligarquia holandesa na política européia e mundial foi maior do que a de Veneza; o conflito entre os interesses da oligarquia capitalista holandesa e os interesses das autoridades do sistema de governo medieval foram mais determinantes do que os conflitos com Veneza; as aptidões da oligarquia capitalista holandesa de realização da guerra ultrapassavam de muito aquelas da oligarquia veneziana; e as possibilidades de construção do Estado da oligarquia capitalista holandesa eram muito maiores do que aquelas da oligarquia veneziana.
A vitória contra Holanda nos conflitos posterior a paz de Westfália levaram a supremacia mundial da Inglaterra e França.  As guerras traziam cada vez menos benefícios o que levou o investimento para outras atividades na qual a Grã-Bretanha tinha vantagem relativa decisiva. A nova organização político-econômica mundial teve três componentes: colonialismo de povoamento, escravismo capitalista e nacionalismo econômico. 
A expansão ultra marina inglesa aumentava a pressão sobre os Estados da Europa continental. Na transição para hegemonia inglesa os súditos tinham mais autonomia.
A nova onda de rebelião tinha origem na luta anterior pelo Atlântico. O Reino Unido tornou-se hegemônico porque liderava no início um leque amplo de forças dinásticas.  Ao contrário das Províncias Unidas, o Reino Unido governou o sistema interestados, organizou o sistema para comandar as novas realidades de poder.  Assim, surgiu o imperialismo de livre-comércio em três níveis de análise inter-relacionados: o sistema interestados inclui mais Estados ao passo que o equilíbrio chegou a operar acima deles; desintegração dos impérios coloniais do mundo ocidental acompanhada da expansão de impérios no mundo não-ocidental; e a expansão e a suplantação do sistema westfaliano encontraram expressão num instrumento novo de governo mundial.
No imperialismo de livre comercio as leis que operam dentro e entre os Estados estava sujeitas à autoridade do mercado mundial.
De 1776-1848 as revoluções Americana e Industrial aumentaram a capacidade inglesa de satisfazer a demanda por riquezas. A internacionalização da burguesia inglesa encabeçou o movimento que reformou as estruturas de representação do Estado britânico.
No final do Séc. XIX o Reino Unido começou a perder controle do equilíbrio de perder na Europa e no mundo. A ascensão alemã e norte-americana diminuiu a capacidade inglesa. Em termos territoriais os Estados Unidos tinham mais vantagens que a Alemanha. O envolvimento alemão levou ao seu enfraquecimento.  A Primeira Guerra Mundial fez surgir movimentos sociais contra o imperialismo de livre-comércio. Assim, a guerra entre as grandes potências estava fadada a ter um impacto contraditório nas relações governante-súdito. A partir da Primeira Guerra surgiram diversos movimentos sociais, sendo o mais marcante a Revolução Soviética de 1917. Do confronto entre a facção dominante e a facão recém-chegada culminou desintegração completa do mercado mundial violações ao sistema westfaliano. 
Os Estados Unidos se tomaram dominantes buscando restaurar o sistema wesfaliano e depois passaram a governar o sistema restaurado. Com o termino da luta entre as forças conservadoras e reacionárias culminou no aumento do poder mundial tanto dos Estados Unidos quanto da União Soviética dando início a reconstrução do sistema interestados no sentido de acomodar as demandas dos não-ocidentais. Depois da Segunda Guerra Mundial foi garantido a todos os Estados o direito a autodeterminação.  A hegemonia inglesa expandiu o sistema interestados para democratização do nacionalismo e a hegemonia norte-americana completou essa expansão ao proletarizar o nacionalismo.
O que fez as Províncias Unidas, o Reino Unido e os Estados Unidos serem hegemônicos não foi o poder militar e econômico e sim suas capacidades resolver problemas que geravam conflito no sistema mundial.  As hegemonias mundiais têm num sistema que elas próprias criaram expandiram e superaram. Com isso, as condições de ascensão e declínio das hegemonias mundiais mudaram de uma hegemonia para a seguinte em aspectos significativos. Cada Estado hegemônico posterior foi menos capitalista que o anterior, entretanto, o sistema interestado se tornou mais capitalista porque mais  Estados passaram a seguir a lógica capitalista. 

segunda-feira, 4 de março de 2013

Mario Vargas Llosa - Por trás das leis deve existir uma certa moral


Nesse vídeo Mario Vargas Llosa fala da legitimidade das leis, consequentemente na influência da moral e da religiosidade na validade da legislação. Cumprir as leis é uma questão de moralidade.

http://www.youtube.com/watch?v=70D32j4oeh0&feature=youtu.be

Coerção, capital e Estados europeus 990-1992.

Resenha
 
 
TILLY, Charles. Coerção, capital e Estados europeus 990-1992. São Paulo: EdUSP, 1996. Cap. 1 e 3.

 

Na definição de Tilly os Estados são organizações que aplicam coerção em famílias e outras organizações, esse conceito abrange cidades-estado, impérios, teocracias e outras formas de governo. Ao longo da história, poucos foram os Estados-nação.

Após a Segunda Guerra Mundial toda a superfície da terra passou a ser ocupado por Estados que se reconhecem mutuamente.  As populações que não formam Estados distintos e os blocos de Estados são movimentos contrários a essa situação.

Os Estados foram sistemas à medida que interagem entre si e que a sua interação afeta significativamente o destino de cada parceiro.  Os Estados sempre se desenvolvem a partir da luta pelo controle de território e população, portanto aparecem invariavelmente em aglomerados e costumam formar sistemas.  A explicação para a grande variação temporal e espacial dos tipos de estado na Europa depois de 990 d. C. está nas mudanças econômicas e nos fatores externos ao Estado. 

A maioria dos estudiosos da formação do Estado adotou uma perspectiva estatística, que considera a transformação de qualquer estado particular como o resultado de eventos não econômicos dentro de seu próprio território. Já na perspectiva geopolítica, o sistema internacional é o grande formador do Estado em seu próprio território.  As análises do Estado pelo modo de produção, por sua vez, seguem a lógica da organização da produção na qual o Estado está envolvido na geração e distribuição de mais-valia quando procura manter seu poder e riqueza.  Outra visão caracteriza a formação do Estado na economia do globo.  No entanto, nenhuma dessas linhas propicia um conjunto satisfatório de respostas à formação dos Estados europeus.

No argumento de Tilly a história diz respeito ao capital e à coerção. Os Estados refletem a organização da coerção e também mostram os efeitos do capital, essa combinação produz tipos distintos de Estado.

A guerra induz a formação e transformação do Estado. A extração e a luta pelos meios de guerra criaram as estruturas organizacionais centrais dos Estados. As formas de organização dos Estados variaram da entre coerção e capital, de modo que, os Estados seguiram claramente trajetórias diferentes. Com o passar do tempo, a guerra e a preparação para a guerra produziam os principais componentes dos Estados europeus. Os Estados que perderam guerras comumente se contraíram, e muitas vezes deixaram de existir. Antes de sua recente convergência, as trajetórias de imensa aplicação de coerção, de grande inversão de capital e de coerção capitalista conduziram a tipos muito diferentes de Estado.

O modelo de Estado conta com os seguintes elementos: um governante (tomador de decisão), uma classe dirigente (controle dos meios de produção do território); opositores, inimigos rivais do Estado; o restante da população, aparelho coercivo e o aparelho civil.  Os mecanismos pelos quais os governantes adquiriram os meios de executar as suas atividades essenciais – sobretudo a criação da força armada – e o envolvimento desses mecanismos na estrutura do Estado são vistas nas principais mudanças da guerra, na estrutura política e na luta doméstica.

A criação de forças armadas por um governante gerou uma estrutura de Estado duradoura.  A guerra impulsionou os Estados, mas não exauriu a sua atividade. Ao contrário, com os preparativos para a guerra, os governantes deram início, de uma forma ou de outra, a atividades e organizações que acabaram por adquirir vida própria, tais como: tribunais, tesouros, sistemas de tributação, administrações regionais, assembleias públicas e muitos outros. A guerra teceu a rede europeia de Estados nacionais, e a preparação da guerra criou as estruturas dos Estados situados dentro dessa rede.

Com uma nação em armas, o poder de extração do Estado cresceu enormemente, como também aumentaram as reivindicações dos cidadãos ao seu Estado. Embora um chamado para defender a pátria mãe tenha estimulado um apoio extraordinário aos esforços de guerra, a dependência da conscrição em massa, da tributação confiscatória e da conversão da produção para as finalidades da guerra tornou todo Estado vulnerável à residência popular e responsável pelas reivindicações populares, como nunca ocorrera antes.

sábado, 2 de março de 2013

Resenha - consequencias da modernidade


GIDDENS, Anthony. As conseqüências da modernidade. São Paulo: Editora UNESP, 1991.

 

Capítulo I – Introdução

 

Modernidade refere-se ao estilo de vida ou organização social que emergiu na Europa a partir do século XVII e que se tornando mundial em sua influência. Mas, esse conceito é restrito no tempo e no espaço. No final do século XX, aponta-se para um novo sistema social no qual os desafios vão para além da modernidade, a pós-modernidade, que se caracteriza pela pluralidade do conhecimento, sem a primazia da ciência. No entanto, antes de se criar novos termos, é prudente fazer uma análise da natureza da modernidade, a qual tem sido pouco abrangida pelas ciências sociais.

A análise de Giddens tem seu ponto de origem na interpretação "descontinuísta" do desenvolvimento social moderno. Os modos de vida da modernidade não têm precedentes, as rápidas mudanças nos últimos séculos são de forte impacto. A narrativa evolucionária ajuda a elucidar a tarefa de analisar a modernidade e muda o foco de parte do debate pós-moderno. As características das descontinuidades que levaram a modernidade são ritmo de mudança, escopo da mudança e natureza intrínseca das instituições modernas.

No debate da modernidade, as contraposições da segurança versus perigo e da confiança versus risco é um fenômeno de dois gumes. Se, por um lado, a segurança na modernidade é maior que no período anterior, por outro, foi uma era turbulenta que gerou trabalho industrial moderno, totalitarismo e desenvolveu o poder militar. Há três concepções que inibem uma análise satisfatória das instituições modernas: diagnóstico institucional da modernidade (o capitalismo para Marx, posição critica por Durkheim e Weber), a análise da “sociedade” e as conexões entre conhecimento sociológico e as características da modernidade.  A compreensão da modernidade deve contemplar seu extremo dinamismo, caráter globalizante das instituições modernas e compreender as descontinuidades das culturas tradicionais.

A separação entre tempo e espaço é importante na modernidade como condição do processo de desencaixe (aumento da distância entre o espaço e o tempo); por proporcionar engrenagens para o traço distintivo da vida social moderna, a organização racionalizada; e na formação de uma estrutura histórico-mundial. O desenvolvimento de mecanismos de desencaixe retira a atividade social dos contextos localizados, reorganizando as relações sociais através de grandes distâncias tempo-espaciais. Há dois tipos de mecanismos de desencaixe nas instituições sociais modernas: as fichas simbólicas (p. ex. o dinheiro) e os sistemas peritos. Esses mecanismos dependem da confiança que implica em um estado contínuo da ação dos indivíduos, sendo um tipo específico de crença.

Na modernidade, a reflexividade é introduzida na base da reprodução do sistema, de forma que o pensamento e a ação se relacionam entre si. As práticas sociais são examinadas e reformuladas a partir da informação auto-revelada conduzindo à sua alteração. O conhecimento, em ciências naturais e sociais, não é mais saber, o que é o certo. A reflexividade abrange as ciências naturais, a economia e a vida social moderna (estatísticas oficiais). A reflexividade da modernidade, que está diretamente envolvida com a contínua geração de autoconhecimento sistemático, não estabiliza a relação entre conhecimento perito e conhecimento aplicado em ações leigas. O conhecimento reivindicado por observadores peritos reúne-se a seu objeto, deste modo alterando-o.

A pós-modernidade significa que a trajetória do desenvolvimento social se afasta das instituições da modernidade em direção uma nova ordem social. O pós-modernismo, se é que ele existe de forma válida, pode exprimir uma consciência de tal transição.

 

Capítulo 2 - As Dimensões Institucionais da Modernidade

 

A sociedade capitalista conta com características institucionais específicas: competitividade, expansionismo, isolamento de outros setores sociais, propriedade privada dos meios de produção, autonomia do estado que é condicionada pela acumulação do capital. A sociedade capitalista está circunscrita ao estado-nação, que é interpretado pelo controle que ele consegue sobre territórios delimitados.

As quatro dimensões institucionais básicas da modernidade são o capitalismo (acumulação do capital no contexto de trabalho e mercados de produtos competitivos), industrialismo (transformação da natureza), poder militar (controle dos meios de violência no contexto da industrialização e da guerra) e vigência (controle da informação e supervisão social). A força de trabalho constitui um ponto de conexão entre capitalismo, industrialismo e a natureza do controle dos meios de violência. O capitalismo aliado ao sistema de estado-nação foram os elementos institucionais promovem a aceleração e a expansão das instituições modernas. A separação da modernidade das ordens tradicionais se acelerou e intensificou graças às dimensões institucionais da modernidade.

A modernidade é inerentemente globalizante, esse processo de alongamento ocorre por conexão entre diferentes regiões ou contextos sociais se enredaram envolvendo todo planeta. A globalização promove a transformação local por meio de conexões sociais através do tempo e do espaço. As discussões da globalização tendem a aparecer em dois corpos de literatura: a das relações internacionais e a teoria do "sistema mundial" associada a Immanuel Wallerstein. Para os teóricos das relações internacionais os estados-nação são atores, envolvem-se na arena internacional em conjunto com organizações transnacionais.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Resenha - A consciência de tempo da modernidade e sua necessidade de autocertificação.


HABERMAS, Jürgen. A consciência de tempo da modernidade e sua necessidade de autocertificação. In. _____. O Discurso Filosófico da Modernidade: doze lições. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

Habermas é um adepto convicto do projeto da Modernidade e um adversário da Pós-modernidade, tanto em seu aspecto político como também estético. No primeiro capítulo do seu livro Discurso Filosófico da Modernidade, Habermas aborda o processo de consolidação filosófica da Modernidade.

Max Weber relaciona modernidade com o racionalismo ocidental, sendo racional a cultura profana e o desenvolvimento de sociedades modernas. A cristalização da empresa capitalista e da burocracia estatal produz a racionalização que modifica os modos de vida. A teoria da modernidade abstrai o conceito weberiano de modernidade e desvincula-se da racionalidade. A expressão “pós-moderno” foi desenvolvida nos anos 50 e 60, no entanto os processos de modernização prosseguem longe do observador pós-moderno. A pós-modernidade apresenta-se em duas teses distintas: neoconservadora e anarquista.

Habermas adverte que se deve analisar a obra de Hegel para entender a relação entre modernidade e racionalidade e julgar a legitimidade de outras premissas. A modernidade, a emergência do conceito de “nova era” e temps moderns por volta de 1800, envolveu uma nova consciência de tempo e a criação de uma mentalidade, baseada nos eventos revolucionários tais como Renascença, Reforma e descoberta do novo mundo. Esse lançamento para o mundo na época moderna começou um deslocamento do estético padrão da antiguidade e encontra sua sumarização na subjetividade, o direito à crítica, autonomia de ação e filosofia idealística. Para Baudelaire, a experiência estética confundia-se, nesse momento, com a experiência histórica da modernidade.

Hegel foi o primeiro a problematizar filosoficamente o desligamento da modernidade do passado e a considerar o movimento da história como a realização da idéia de autoconsciência. De forma geral, Hegel vê como característica dos tempos modernos a auto-relação que ele denomina subjetividade por meio da liberdade e da reflexão. As suas concepções da subjetividade são individualismo, direito de crítica, autonomia de ação e filosofia idealista. Na modernidade, a vida religiosa, o Estado, a sociedade, a ciência, a moral e a arte transformam-se igualmente em personificações do princípio da subjetividade. A esfera do saber se isola da esfera da fé e as relações sociais organizam juridicamente o convívio cotidiano, isso compreenderá o princípio da modernidade.

O entendimento da filosofia de Kant como auto-interpretação só é possível por meio da visão de Hegel. Kant não considera como cisões as diferenciações no interior da razão e consequentemente ignora a necessidade que se manifesta com as separações impostas pelo princípio da subjetividade. Para Hegel, a razão deve superar as cisões da subjetividade. Por meio de sua critica a Kant e Fichte, Hegel busca a autocompreensão da modernidade que neles exprime.

Resenha

Resenha elabora por Angélica Behenck Ceron


SHERA, Jesse; CLEVELAND, Donald B. History and foundations of information Science. Annual Review of Information Science and Technology, v. 12, p. 249-275, 1997.

A Documentação foi precursora do que hoje é a Ciência da Informação (CI). No final do Sec. XIX, o trabalho dos belgas Paul Otlet e Henri La Fontaine resultou na criação do Instituto Internacional de Bibliografia (IIB), que passou a ser denominada Federação Internacional para Documentação (FID) com a cunhagem do termo documentação. A Documentação abarca a análise e a organização de todos os tipos de documento, incluindo os não convencionais e arquivos técnicos. O Traté de Documentación, publicado por Otlet, amplia a idéia de organização para todos os registros gráficos, usuários e propósitos. Outra obra de destaque é Qu’est-ce la Documentación da documentalista francesa Suzzane Briet que define documento como qualquer base material de conhecimento capaz de ser usada para consulta, estudo ou prova.

A Documentação nos Estados Unidos teve um desenvolvimento diferente da Europa e outros países. A utilização da tecnologia de microfilmagem desenvolvida pela Kodak ganha rapidamente espaço nas bibliotecas e na literatura americana. O American Documentation Institute (ADI) foi fundado com a liderança de Watson Davis da National Academy of Science (NAS). Ele enumerou quatro pontos que influenciaram sua atuação: formação de um grande sistema por meio do empréstimo entre bibliotecas e o uso de microfilme; fundar um serviço auxiliar de publicações na Biblioteca do Congresso; constituir um grande periódico com os resumos disponíveis desse serviço; e possibilitar a idéia de “grande cérebro” de H. G. Wells, fazer disponível o conhecimento do mundo em um índice em microfilme.

O início da automação dos registros escritos foi marcada pelo o amplo uso do microfilme na Segunda Guerra Mundial em documentos de inteligência; a análise de documentos usando equipamento de cartões perfurados da IBM por agências do governo; e a hipótese de uso dos cartões perfurados para substituir os catálogos das bibliotecas e outras publicações bibliográficas. Nesse contexto, Vannevar Bush escreve o artigo “As we may think” que abriu caminho para a nova era da Documentação e CI.

Na década de 1940 ampliam-se os eventos sobre Documentação e incluem-se nos currículos das escolas de Biblioteconomia disciplinas sobre o tema. A UNESCO promoveu o debate sobre a importância de ampliar a cooperação internacional bibliografia geral e em ciências sociais.

A passagem da Documentação para a Ciência da Informação foi marcada pela Conferência Internacional em Informação Científica de 1958. Esse evento foi além da Documentação e incluiu outras áreas. Na década de 1960 cresceu o número de associados a ADI e sua atividade se ampliou. De tempos em tempos buscava-se unir a ADI com a Special Libraries Association, mas o termo documentação não favorecia a idéia. Em 1968 a ADI passou a se denominar American Society for Information Science (ASIS).

As atividades em Documentação da segunda guerra mundial até 1956 foram: tentativa mecanização, formação de organizações de pesquisa e crescimento do interesse governamental no problema da informação. Na década de 1960 havia um ambiente propício para o desenvolvimento da CI: interesse tanto da comunidade científica como do governo no problema da informação; crescimento dos usuários informação científica e técnica; e valorização da transferência da informação, pelo governo, como parte inseparável da pesquisa e desenvolvimento. Os crescentes avanços tecnológicos abriram caminho para o desenvolvimento de sistemas de informação pelo governo e por suas agências. Foram escritos artigos sobre o papel dos computadores no desenvolvimento da Ciência da Informação. O computador em si, não é objeto central da CI, mas, por outro lado, a área não faria sentido sem os computadores. No final da década de 1960, a tecnologia existia, mas estávamos começando a nos dar conta de sua complexidade. Nesse contexto, surgem trabalhos sobre a relevância como base para a avaliação da efetividade dos sistemas de recuperação da informação.

Quanto ao foco teórico da Ciência da Informação, a abordagem de Capurro resume a evolução dos fundamentos da área em três momentos. Assim, CI nasce na década de 1950 com um paradigma físico, questionado por um enfoque cognitivo, sendo este substituído por um paradigma pragmático e social.

A teoria da informação de Shannon é universalmente conhecida como um clássico que foi amplamente utilizada pela literatura da área. Muitos teóricos debateram essa teoria, que compõe o paradigma físico segundo Capurro. Em 1955, Schramm discute a teoria de Shannon e suas aplicações nos estudos de linguagem, aponta que essa teoria está concentrada nos aspectos físicos da transmissão de informação. A preocupação de Shannon era técnica, não havia preocupação com a transferência de conhecimento. Assim, a teoria da informação tem abordagem distinta da Ciência da Informação. Brillouin, por sua vez, advertiu que não se pode, por hora, introduzir na teoria elementos de valor humano da informação. Uma definição não pode distinguir a importância da informação.  Fairthone pontua que há muita confusão na literatura como resultado do estudo superficial da teoria de Shannon, assim essa teria seria insuficiente como teoria da Ciência da Informação.  Artandi acredita que a teoria de Shannon pode ser usada para análise de problemas gerais de informação. Tanto a teoria de Shannon como a semiótica podem contribuir para um melhor entendimento da informação no contexto de sistemas de informação. Belzer propõe uma medida do conteúdo semântico da informação.

Ainda dentro do paradigma físico, Bar-Hillel deu uma visão à área pelo uso da álgebra booleana em sistemas de busca de informação. Goffman et al., por outro lado, demonstrou a insuficiência da álgebra booleana.

Partindo para o paradigma social, Weisman e Shera apontam para a forte ligação entre CI e Comunicação. Kitagawa aborda que a nova disciplina apóia-se em novos canais de comunicação entre a física, biologia e as ciências humanas e sociais. Assim, se caracteriza o forte traço interdisciplinar da área.

Há consenso de que a CI, como disciplina acadêmica, necessita de fundamentos teóricos estruturados. Muita energia foi despedida nesse debate. A definição das conferências do Georgia Institute of Technology do início da década de 1960 é a mais antiga e aceita.

[A Ciência da Informação é a] ciência que investiga as propriedades e comportamento da informação, as forças que governam o fluxo de informação e o significado do processamento da informação para melhor acessibilidade e uso. Os processos incluem a origem, disseminação, coleta, organização, estoque, interpretação e uso da informação. O campo é derivado de ou relaciono à matemática, lógica, lingüística, psicologia, tecnologia da computação, pesquisa operacional, artes gráficas, comunicações, ciência da biblioteca, administração e alguns outros campos.

Sobre o debate sobre a definição da área podemos destacar as idéias dos seguintes autores: Mohardt usa “documentação”; Heilprin baseia-se física e psicologia das mensagens; Hoshovshy e Massey vêem o campo como resultado do trabalho dos cientistas da informação; Borko usa uma variação da definição da conferência do Georgia Institute of Technology; Brookes sustenta o uso do termo informação em um sentido não-documentário; e Auerbach relata a confusão no entendimento de informação e CI. Ao longo do tempo a área passou por diversos debates sua definição. Sendo consenso que a área trabalha com os registros de conhecimento, e sua transferência no sentido amplo.

A Ciência da Informação, segundo Harmon, não é apenas uma metamorfose da Documentação e recuperação da informação evoluiu de um largo número de disciplinas comunicacionais e comportamentais e outros campos disciplinares.

Para um melhor entendimento da história da Ciência da Informação e suas instituições tento na Europa como nos Estados Unidos, e também no Brasil, faz-se necessário um projeto sério de história oral para a preservação da memória da área. Assim, é possível ver a evolução do olhar da CI sobre seu objeto de estudo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Cartilha - Acesso à Informação Pública

Está disponível na internet a cartilha “Acesso à Informação Pública”. É um guia fácil para entender a lei de acesso a informação Lei nº 12.527/2011.

http://www.acessoainformacao.gov.br/acessoainformacaogov/publicacoes/CartilhaAcessoaInformacao.pdf

No site www.acessoainformacao.gov.br/ é possível encontrar outras publicações interessantes sobre a temática.