SHERA,
Jesse; CLEVELAND, Donald B. History and foundations of information Science. Annual Review of Information Science and Technology, v. 12, p. 249-275, 1997.
A Documentação foi precursora do que hoje é a Ciência da Informação
(CI). No final do Sec. XIX, o trabalho dos belgas Paul Otlet e Henri La
Fontaine resultou na criação do Instituto Internacional de Bibliografia (IIB), que
passou a ser denominada Federação Internacional para Documentação (FID) com a
cunhagem do termo documentação. A Documentação abarca a análise e a
organização de todos os tipos de documento, incluindo os não convencionais e
arquivos técnicos. O Traté de Documentación, publicado por Otlet, amplia
a idéia de organização para todos os registros gráficos, usuários e propósitos.
Outra obra de destaque é Qu’est-ce la Documentación da documentalista
francesa Suzzane Briet que define documento como qualquer base material de
conhecimento capaz de ser usada para consulta, estudo ou prova.
A Documentação
nos Estados Unidos teve um desenvolvimento diferente da Europa e outros países.
A utilização da tecnologia de microfilmagem desenvolvida pela Kodak ganha
rapidamente espaço nas bibliotecas e na literatura americana. O American
Documentation Institute (ADI) foi fundado com a liderança de Watson Davis da National
Academy of Science (NAS). Ele enumerou quatro pontos que influenciaram sua
atuação: formação de um grande sistema por meio do empréstimo entre bibliotecas
e o uso de microfilme; fundar um serviço auxiliar de publicações na Biblioteca
do Congresso; constituir um grande periódico com os resumos disponíveis desse serviço;
e possibilitar a idéia de “grande cérebro” de H. G. Wells, fazer disponível o
conhecimento do mundo em um índice em microfilme.
O início da
automação dos registros escritos foi marcada pelo o amplo uso do microfilme na
Segunda Guerra Mundial em documentos de inteligência; a análise de documentos
usando equipamento de cartões perfurados da IBM por agências do governo; e a
hipótese de uso dos cartões perfurados para substituir os catálogos das
bibliotecas e outras publicações bibliográficas. Nesse contexto, Vannevar Bush
escreve o artigo “As we may think” que abriu caminho para a nova era da
Documentação e CI.
Na década de
1940 ampliam-se os eventos sobre Documentação e incluem-se nos currículos das
escolas de Biblioteconomia disciplinas sobre o tema. A UNESCO promoveu o debate
sobre a importância de ampliar a cooperação internacional bibliografia geral e
em ciências sociais.
A passagem da
Documentação para a Ciência da Informação foi marcada pela Conferência Internacional
em Informação Científica de 1958. Esse evento foi além da Documentação e
incluiu outras áreas. Na década de 1960 cresceu o número de associados a ADI e
sua atividade se ampliou. De tempos em tempos buscava-se unir a ADI com a
Special Libraries Association, mas o termo documentação não favorecia a
idéia. Em 1968 a ADI passou a se denominar American Society for Information
Science (ASIS).
As atividades
em Documentação da segunda guerra mundial até 1956 foram: tentativa
mecanização, formação de organizações de pesquisa e crescimento do interesse
governamental no problema da informação. Na década de 1960 havia um ambiente
propício para o desenvolvimento da CI: interesse tanto da comunidade científica
como do governo no problema da informação; crescimento dos usuários informação
científica e técnica; e valorização da transferência da informação, pelo
governo, como parte inseparável da pesquisa e desenvolvimento. Os crescentes
avanços tecnológicos abriram caminho para o desenvolvimento de sistemas de
informação pelo governo e por suas agências. Foram escritos artigos sobre o
papel dos computadores no desenvolvimento da Ciência da Informação. O
computador em si, não é objeto central da CI, mas, por outro lado, a área não
faria sentido sem os computadores. No final da década de 1960, a tecnologia
existia, mas estávamos começando a nos dar conta de sua complexidade. Nesse
contexto, surgem trabalhos sobre a relevância como base para a avaliação da
efetividade dos sistemas de recuperação da informação.
Quanto ao foco
teórico da Ciência da Informação, a abordagem de Capurro resume a evolução dos
fundamentos da área em três momentos. Assim, CI nasce na década de 1950 com um
paradigma físico, questionado por um enfoque cognitivo, sendo este substituído
por um paradigma pragmático e social.
A teoria da
informação de Shannon é universalmente conhecida como um clássico que foi
amplamente utilizada pela literatura da área. Muitos teóricos debateram essa
teoria, que compõe o paradigma físico segundo Capurro. Em 1955, Schramm discute
a teoria de Shannon e suas aplicações nos estudos de linguagem, aponta que essa
teoria está concentrada nos aspectos físicos da transmissão de informação. A
preocupação de Shannon era técnica, não havia preocupação com a transferência
de conhecimento. Assim, a teoria da informação tem abordagem distinta da
Ciência da Informação. Brillouin, por sua vez, advertiu que não se pode, por
hora, introduzir na teoria elementos de valor humano da informação. Uma
definição não pode distinguir a importância da informação. Fairthone pontua que há muita confusão na
literatura como resultado do estudo superficial da teoria de Shannon, assim
essa teria seria insuficiente como teoria da Ciência da Informação. Artandi acredita que a teoria de Shannon pode
ser usada para análise de problemas gerais de informação. Tanto a teoria de
Shannon como a semiótica podem contribuir para um melhor entendimento da
informação no contexto de sistemas de informação. Belzer propõe uma medida do
conteúdo semântico da informação.
Ainda dentro do
paradigma físico, Bar-Hillel deu uma visão à área pelo uso da álgebra booleana
em sistemas de busca de informação. Goffman et al., por outro lado, demonstrou
a insuficiência da álgebra booleana.
Partindo para o
paradigma social, Weisman e Shera apontam para a forte ligação entre CI e
Comunicação. Kitagawa aborda que a nova disciplina apóia-se em novos canais de
comunicação entre a física, biologia e as ciências humanas e sociais. Assim, se
caracteriza o forte traço interdisciplinar da área.
Há consenso de que a CI, como disciplina acadêmica, necessita de
fundamentos teóricos estruturados. Muita energia foi despedida nesse debate. A
definição das conferências do Georgia Institute of Technology do início da
década de 1960 é a mais antiga e aceita.
[A Ciência da Informação é a] ciência que investiga as propriedades
e comportamento da informação, as forças que governam o fluxo de informação e o
significado do processamento da informação para melhor acessibilidade e uso. Os
processos incluem a origem, disseminação, coleta, organização, estoque,
interpretação e uso da informação. O campo é derivado de ou relaciono à
matemática, lógica, lingüística, psicologia, tecnologia da computação, pesquisa
operacional, artes gráficas, comunicações, ciência da biblioteca, administração
e alguns outros campos.
Sobre o debate
sobre a definição da área podemos destacar as idéias dos seguintes autores:
Mohardt usa “documentação”; Heilprin baseia-se física e psicologia das
mensagens; Hoshovshy e Massey vêem o campo como resultado do trabalho dos
cientistas da informação; Borko usa uma variação da definição da conferência do
Georgia Institute of Technology; Brookes sustenta o uso do termo informação em
um sentido não-documentário; e Auerbach relata a confusão no entendimento de
informação e CI. Ao longo do tempo a área passou por diversos debates sua
definição. Sendo consenso que a área trabalha com os registros de conhecimento,
e sua transferência no sentido amplo.
A Ciência da Informação,
segundo Harmon, não é apenas uma metamorfose da Documentação e recuperação da
informação evoluiu de um largo número de disciplinas comunicacionais e
comportamentais e outros campos disciplinares.
Para um melhor entendimento da história da Ciência da Informação e
suas instituições tento na Europa como nos Estados Unidos, e também no Brasil,
faz-se necessário um projeto sério de história oral para a preservação da
memória da área. Assim, é possível ver a evolução do olhar da CI sobre seu
objeto de estudo.
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